Ao saber que uma pessoa
próxima tem uma doença crônica, muitos familiares e amigos surtam e começam a
opinar sem medida, começam a criticar sem saber, e muitas vezes passam a fazer
comentários intempestivos, conflituosos e até mesmo cruéis com o doente.
As questões que os amigos ou
familiares devem se perguntar são: Seu comentário será importante na vida do
doente? Você está sendo preconceituoso? Você está ajudando o doente?
Quantas vezes ouvimos: “Você
não pode comer essa comida, tem queijo”. Bom, muitos pacientes com DII possuem
restrições com lactose, mas isso não quer dizer que todos os tipos de queijo
são proibidos ou que todos os pacientes possuem essa restrição. Cada paciente
sabe ou saberá o que faz mal para ele, e muitas vezes, o paciente não quer
pensar nisso naquele momento. Acredite! Muitas vezes a pessoa se programa para
comer o alimento mesmo sabendo que pode vir a passar mal, eu, por exemplo, amo
um sorvete de determinada loja e sei que ele me faz mal. Entretanto, quando
sinto aquela vontade, me programo da seguinte forma: se eu não tenho
compromisso no domingo e pretendo ficar em casa no final de semana, como no
sábado no fim do dia, que caso eu venha a passar mal, não perderei compromissos
e estarei em casa (com o meu banheiro, com o tempo livre). Muitas vezes nem dá
nada não, viu? É um direito meu me alimentar da forma que eu achar melhor, e o
correto é respeitar as opções do doente.
Também ouvimos quando
falamos da nossa restrição para um amigo que vai servir um jantar “Mas um
pouquinho faz mal?” Bom, não é fácil para ninguém ser o centro do universo quando
o assunto é evento social com comida. Quando somos convidados para uma feijoada,
por exemplo, de todos os pratos servidos, o que podemos comer são arroz e
laranja. O feijão costuma fazer mal, a carne de porco também, geralmente os
condimentos para o caldo fazem mal também, bem como a couve. A maioria das
vezes que me chamam para feijoada eu vou ao evento, mas eu me alimento antes.
Ninguém que faz feijoada quer preparar outro prato especial para quem tem DII.
A pessoa na maioria das vezes nem sabe o que é DII, como ela vai preocupar com
uma coisa que ela não conhece? Quantas vezes me perguntaram: “E se eu bater no
liquidificador?”, “E se eu não colocar a pimenta?”, “E se você comer a carne de
boi que tem na feijoada?”, “E se comer só o feijão?”, “E se eu coar o feijão?”,
“E se você comer só a carne?”, “Come só um pouquinho, não vai fazer mal, é tudo
caseiro.”, “ Mas o porco é caipira.”, “E se a couve estiver crua?”, entre
outras perguntas e comentários. Por favor, não faça isso, é constrangedor! Não
insista com o doente se ele disser que não pode, não ofereça outras formas de
preparação, se o doente se interessar, ele vai falar. Mas o pior mesmo e pelo
amor de Deus nunca faça isso é dizer: “Fulano é cheio de frescura pra comer.”.
Sabe, magoa muito. Não é opção da gente.
Outra coisa que abala muito
a auto-estima dos pacientes com DII são as brincadeiras dos colegas no ambiente
de trabalho. É extremamente chato você ter um diagnóstico de dor de barriga e
TODA VEZ que você passa mal, você ter que encarar fila do médico para pegar o
atestado de um dia, para uma condição que você na verdade deveria estar quieto
dentro da sua casa. Você não está bem, precisa de privacidade, precisa de
banheiro o tempo inteiro, mas o infeliz do RH quer um atestado para não cortar
seu ponto, por isso você tem que encarar um consultório cheio (por que você
provavelmente será encaixe), ficará muito tempo sentado (suando frio, sentindo
dor e esperando o último paciente que
estiver agendado) porque seu empregador não acredita em você. E no dia
que você volta a trabalhar os coleguinhas ainda tem a pachorra de perguntar: “E
aí o que você tinha?”, ou com algum tom irônico “tava de folga querido?”.
Tem também aqueles
comentários “Doença auto-imune não é você que criou? Então você é capaz de
curar”, “Você precisa de fé para curar isso” ou o clássico “Eu conheço uma
fulana que tem isso e que tomou tal chá e curou...”. Quer dizer, nem os
cientistas conseguiram achar a cura da DII, mas tem um chá que essa pessoa está
receitando que com certeza é a cura de seus problemas.
Será que a pessoa não pensa
que sugerir que você é capaz de se curar SOZINHO, que você não está tentando
suficientemente é extremamente cruel?
Tudo isso que escrevi são
relatos reais, que eu passei e passo direto no dia a dia, e por educação, por
saber a ignorância das pessoas eu tenho tido a paciência de explicar, de debater,
mas que se você não tem DII e está lendo isso aqui, por favor, reflita sobre
isso. Não é legal criticar, não é legal brincar com os sentimentos dos outros e
muito menos ser intolerante.
Ana Paula Drumond

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