quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Comentários e opiniões de quem nada sabe



Ao saber que uma pessoa próxima tem uma doença crônica, muitos familiares e amigos surtam e começam a opinar sem medida, começam a criticar sem saber, e muitas vezes passam a fazer comentários intempestivos, conflituosos e até mesmo cruéis com o doente.
As questões que os amigos ou familiares devem se perguntar são: Seu comentário será importante na vida do doente? Você está sendo preconceituoso? Você está ajudando o doente?
Quantas vezes ouvimos: “Você não pode comer essa comida, tem queijo”. Bom, muitos pacientes com DII possuem restrições com lactose, mas isso não quer dizer que todos os tipos de queijo são proibidos ou que todos os pacientes possuem essa restrição. Cada paciente sabe ou saberá o que faz mal para ele, e muitas vezes, o paciente não quer pensar nisso naquele momento. Acredite! Muitas vezes a pessoa se programa para comer o alimento mesmo sabendo que pode vir a passar mal, eu, por exemplo, amo um sorvete de determinada loja e sei que ele me faz mal. Entretanto, quando sinto aquela vontade, me programo da seguinte forma: se eu não tenho compromisso no domingo e pretendo ficar em casa no final de semana, como no sábado no fim do dia, que caso eu venha a passar mal, não perderei compromissos e estarei em casa (com o meu banheiro, com o tempo livre). Muitas vezes nem dá nada não, viu? É um direito meu me alimentar da forma que eu achar melhor, e o correto é respeitar as opções do doente.
Também ouvimos quando falamos da nossa restrição para um amigo que vai servir um jantar “Mas um pouquinho faz mal?” Bom, não é fácil para ninguém ser o centro do universo quando o assunto é evento social com comida. Quando somos convidados para uma feijoada, por exemplo, de todos os pratos servidos, o que podemos comer são arroz e laranja. O feijão costuma fazer mal, a carne de porco também, geralmente os condimentos para o caldo fazem mal também, bem como a couve. A maioria das vezes que me chamam para feijoada eu vou ao evento, mas eu me alimento antes. Ninguém que faz feijoada quer preparar outro prato especial para quem tem DII. A pessoa na maioria das vezes nem sabe o que é DII, como ela vai preocupar com uma coisa que ela não conhece? Quantas vezes me perguntaram: “E se eu bater no liquidificador?”, “E se eu não colocar a pimenta?”, “E se você comer a carne de boi que tem na feijoada?”, “E se comer só o feijão?”, “E se eu coar o feijão?”, “E se você comer só a carne?”, “Come só um pouquinho, não vai fazer mal, é tudo caseiro.”, “ Mas o porco é caipira.”, “E se a couve estiver crua?”, entre outras perguntas e comentários. Por favor, não faça isso, é constrangedor! Não insista com o doente se ele disser que não pode, não ofereça outras formas de preparação, se o doente se interessar, ele vai falar. Mas o pior mesmo e pelo amor de Deus nunca faça isso é dizer: “Fulano é cheio de frescura pra comer.”. Sabe, magoa muito. Não é opção da gente.
Outra coisa que abala muito a auto-estima dos pacientes com DII são as brincadeiras dos colegas no ambiente de trabalho. É extremamente chato você ter um diagnóstico de dor de barriga e TODA VEZ que você passa mal, você ter que encarar fila do médico para pegar o atestado de um dia, para uma condição que você na verdade deveria estar quieto dentro da sua casa. Você não está bem, precisa de privacidade, precisa de banheiro o tempo inteiro, mas o infeliz do RH quer um atestado para não cortar seu ponto, por isso você tem que encarar um consultório cheio (por que você provavelmente será encaixe), ficará muito tempo sentado (suando frio, sentindo dor e esperando o último paciente que  estiver agendado) porque seu empregador não acredita em você. E no dia que você volta a trabalhar os coleguinhas ainda tem a pachorra de perguntar: “E aí o que você tinha?”, ou com algum tom irônico “tava de folga querido?”.
Tem também aqueles comentários “Doença auto-imune não é você que criou? Então você é capaz de curar”, “Você precisa de fé para curar isso” ou o clássico “Eu conheço uma fulana que tem isso e que tomou tal chá e curou...”. Quer dizer, nem os cientistas conseguiram achar a cura da DII, mas tem um chá que essa pessoa está receitando que com certeza é a cura de seus problemas.
Será que a pessoa não pensa que sugerir que você é capaz de se curar SOZINHO, que você não está tentando suficientemente é extremamente cruel?
Tudo isso que escrevi são relatos reais, que eu passei e passo direto no dia a dia, e por educação, por saber a ignorância das pessoas eu tenho tido a paciência de explicar, de debater, mas que se você não tem DII e está lendo isso aqui, por favor, reflita sobre isso. Não é legal criticar, não é legal brincar com os sentimentos dos outros e muito menos ser intolerante.

Ana Paula Drumond


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